nº 22 setembro 2001
Palavra entre nós
Da razão à fé
Notas de um diálogo de Luigi Giussani com um grupo
de jovens
decididos a comprometer sua vida com Cristo
em uma forma de dedicação total.
Publicado originalmente
em Si può (veramente?!) vivere così?
(Milão,
Rizzoli, 1996, pp. 79-97)
A verdade última, o sentido da
vida, das coisas, é um mistério. É um mistério: que significa isso? Que
significa que o sentido da vida e do mundo, da realidade, o valor último da
realidade é um mistério, ou seja, que Deus — um sinônimo de valor último, de
sentido último, de destino — é um mistério? Significa que não é possível
conhecê-lo, que ele não pode ser conhecido pelo homem só com a sua razão. O que
o homem pode conhecer com sua razão?
Que o Mistério existe.
Apenas a existência do Mistério pode ser compreendida
pela razão. A razão pode chegar até a descoberta da existência do Mistério —
isso não faz parte das aulas que estamos tendo sobre a fé, a esperança e a
caridade, mas faz parte do que vocês deveriam ter estudado na
Escola de Comunidade sobre O senso religioso1; os motivos que
sustentam nossa adesão à vocação apoiam-se no conhecimento que a nossa razão
pode ter no âmbito religioso, no seu relacionamento com Deus.
Por que a razão pode conhecer a existência do
Mistério? Porque a razão é consciência da realidade segundo a totalidade de seus
fatores.
Mas eu gostaria de recuperar toda esta coisa de modo
definidor e definitivo: é um assunto ao qual não voltaremos mais.
Primeiro. A razão é consciência da
realidade segundo a totalidade de seus fatores. A razão é consciência da
realidade, isto é, a realidade torna-se transparente, como se emergisse de um
banho de luz — o banho de luz se chama razão — que deixa ver todas as suas
costelas, como uma radiografia: a razão permite ver os fatores que compõem a
realidade, com critérios para julgar se essa costela está no lugar, se está bem,
se está certa, se está no contexto da experiência que vemos, ou se é estranha a
ela.
Segundo. Na totalidade dos seus fatores, vem em
primeiro lugar a imponência dos critérios com os quais a razão julga a si mesma
(autoconsciência), os princípios em que ela se sustenta para ser e para existir. Esses critérios são o que chamamos de coração2.
Em cada experiência particular, na ênfase dos
critérios que julgam a própria experiência e com os quais é possível julgar o
mundo a partir da experiência, esse aflorar dos critérios últimos para a razão é
imediatamente sensível, imediato, automático. O coração é automático, sentir o
próprio coração bater é automático. Esse coração que sentimos bater chama-se
experiência elementar. Toda experiência implica a experiência elementar,
ou seja, toda experiência é julgada por algo que existe nela e que se chama
experiência elementar. Dá para entender até aqui?
O que significa que os critérios para julgar a
experiência nascem da experiência?
Que quer dizer experiência elementar? A percepção
inevitável do que o homem busca em todas as coisas: a busca da sua satisfação
(satisfacere); a busca de ser completo, ou seja, perfectus
(perfeito, completo); do ponto de vista do reflexo estético, a busca de que
a beleza se torne visível, objeto que se possa manipular; a busca de que o tempo
seja bom, seja bondade; a busca de que o existir seja felicidade, como diz o
primeiro capítulo do livro da Sabedoria.
O conteúdo da experiência é a realidade. Um homem
apaixona-se por uma certa moça: é um fato, um fenômeno. O poeta passeia com as
mãos nos bolsos e encontra o mesmo fato. O fato entra no horizonte do seu olhar,
entra em seu âmbito de conhecimento. Por ser um fenômeno real, torna-se objeto
de conhecimento. É o início do fenômeno, mas não é tudo. Diante desse objeto de
conhecimento, o olhar do poeta arde de curiosidade, de simpatia, de aprovação,
pois ele vê no fenômeno algo que também gostaria de ter; entretanto, por ser um
pequeno poeta de quinze anos, ainda não o tem dessa forma.
Ele sente uma nostalgia: sente, reage com um
sentimento de inveja e com um desejo de ter aquele fenômeno também. Até aqui,
não é experiência, mas algo que se sente: um objeto de conhecimento, a presença
de um pedaço de realidade que se sente, que faz reagir, nesse caso, espontaneamente. Se ele não tiver quinze anos, mas trinta e cinco
— “no meio do caminho da nossa vida”3 —, mesmo que não seja Dante e que o objeto
não seja Beatriz, o conhecimento desse fenômeno que lhe provoca
inveja suscita algumas perguntas nele. Se ele, com a caixa ressonante de
Quincke4,
que é a lealdade... A lealdade do homem original, a sinceridade da criança, é
como a caixa ressonante de Quincke. Vocês sabem o que é isso?
Não.
Primeiro colegial, aula de Física. Vocês têm ali sete
chapas e um diapasão. Para saber de que nota é o diapasão, vocês o colocam diante das chapas e, quando chegam ao si, ouvem um
som alto: é um diapasão afinado em si5.
A caixa ressonante de Quincke é toda a natureza desse
poeta que faz perguntas ao que sente, à inveja que sente, à nostalgia que
sente: “É uma satisfação real? É uma resposta verdadeira à minha exigência? É a
felicidade? É verdade e felicidade?”. Essas são as exigências que não nascem no
que ele sente, mas nascem no poeta diante do que ele sente, nascem nele
empenhado com aquilo que sente. Essas perguntas julgam o que ele sente.
Então se torna experiência o puro e
simples “sentir”, “provar”. A personalidade não se desenvolve por causa daquilo
que prova: meninos deixados a si mesmos provam de tudo, mas um homem sábio nunca
pedirá uma opinião deles, porque são debochados. “Mesmo tendo provado tudo,
depois de ter provado tudo — fiz de tudo, provei de tudo —, não sei o que é
viver, não sei o que é o tempo, não sei responder às perguntas mais
elementares”. “E você provou de tudo! Foi livre para fazer qualquer coisa!”
Provar, o mero provar eleva-se à dignidade de
experiência quando o conteúdo que a pessoa experimenta é julgado pelas perguntas
últimas do coração: são os critérios do verdadeiro, do verdadeiro homem, da
humanidade verdadeira, do verdadeiro destino do homem.
O homem é educado pela experiência, não pelo que ele
prova. Não tem cabimento pretender que um filho cresça como um homem maduro
experimentando, provando tudo o que quer. Nenhum pai e nenhuma mãe fariam isso,
exceto os pais e as mães que não estão nem aí: ao invés de abandonar o filho com
dois meses, na calçada, abandonam-no com dois anos, à mercê do que ele quer.
Na medida em que aflora no nível da consciência e
origina uma reação, a realidade faz com que o homem sinta algo, provoca
um “provar”, um “experimentar” — no sentido de sentir —, mas não é ainda uma
experiência (de fato, pode ser um princípio de dissociação e de abominação). Irá
se tornar experiência quando for julgado pelos critérios do coração: se for
realmente verdadeiro, se for realmente belo, se for realmente bom, se for
realmente feliz. O homem governa a sua vida com base nessas perguntas últimas do
coração, nos critérios últimos do coração.
Há trinta anos, quando começava a dizer essas coisas,
eu não pensava que, depois de trinta anos, teria de repeti-las tantas vezes para
que pessoas que já caminham na mesma estrada há dez anos entendessem! Por lerem
as coisas, por acreditarem tê-las compreendido, as pessoas vão em frente e não
são sérias com as palavras que usam, não são sérias com a realidade que as
palavras indicam, não são sérias com o sujeito que vive a realidade da qual se
faz, se forma o tempo delas.
Qual é o ponto de partida para uma indagação humana,
para uma investigação sobre a verdade? O ponto de partida é a experiência. Não o
que provamos, mas a experiência, que é o que se prova julgado pelos critérios do
coração, os quais, como critérios, são infalíveis (infalíveis como critérios,
não como juízos: pode ser uma infalibilidade mal aplicada). Os critérios são
esses, não existem outros; ou os critérios são os do coração, ou somos
alienados, vendidos no mercado da política ou da economia.
Na experiência, a realidade da qual você toma
consciência, a realidade que você prova — ou seja, a realidade que o
impressionou, que causou um impacto em você (affectus) — faz vir à tona
os critérios do coração, desperta em você o coração que antes estava confuso e
dormia; assim, desperta você a você mesmo. Começa aí o seu caminho, porque você
está desperto, é crítico. A cultura é consciência crítica e sistemática de uma
experiência; uma experiência exige desenvolvimento crítico e
sistemático. Eram as palavras que usávamos três dias depois de começar GS6.
A sua pergunta indica a dificuldade que o homem tem
para perceber que o princípio do juízo sobre a experiência está na própria
experiência: “Estou bem”, “Estou mal”, “Isso me faz crescer”. Se algo me faz
crescer, significa que me arma e me instiga na direção dos ideais cujo desejo
constitui o meu coração. Toda experiência tem um coração: o coração do homem. Um
coração que é unitário em qualquer experiência feita pelo homem, que é o
princípio de unidade do próprio homem e princípio de juízo sobre tudo o que o
homem consome, incorpora.
Se não fosse verdade que os princípios para julgar a
experiência estão dentro da própria experiência, o homem seria alienado, porque
teria de depender de algo alheio a si para julgar-se. Alienação: o homem seria
um alienado; a alienação é o fenômeno de experiência em que os critérios com que
a experiência julga a si mesma são inoculados violentamente por algo que vem de
fora e não provêm da própria pessoa.
Terceiro. É verdade que a razão é consciência
da realidade segundo a totalidade dos seus fatores; é verdade que, com essa
consciência, a razão, sempre e continuamente, gera e utiliza princípios que
estão dentro do homem, que são permanentes dentro dele, como critério último que
julga a relação entre o homem e a realidade que ele está experimentando: o seu
coração. Mas será que isso é tudo? Antes de mais nada, é verdade mesmo que a
razão conta todos os fatores?
A razão conta os fatores: “um, dois, três, quatro...
dez!”. Quando acabasse de contar todos, deveria haver o conhecimento total e
definitivo. Mas não: todos os fatores foram contados e, quando a razão chega ao
fim, falta alguma coisa. Que comparação a Escola de Comunidade faz para ajudar a
entender isso? (Sabem o que vocês devem fazer? Talvez devam suspender o primeiro
ano e refazer a Escola de Comunidade, porque, como conhecimentos, a Escola de
Comunidade é mais importante do que o primeiro ano). A comparação do
despertador. Então... na casa de um menino havia um despertador sobre a mesa.
Como ele era muito empreendedor e ativo, curioso, como o pai e a mãe tinham
saído e só a irmã estava em casa — e ela era menor do que ele: ele tinha cinco
anos, a irmã devia ter uns quatro! —, viu o despertador (a empregada também
estava, tinha um adulto em casa), olhou em volta, pegou o despertador e
desmontou tudo. As peças que podiam ser contadas — ele não sabia contar até este
número e, sobretudo, não tinha paciência —, enfim, todas contadas, eram 353 (com
os ponteiros, os parafusinhos...). O despertador era feito de 353 fatores, mas
ele não conseguia mais juntar os 353 fatores. Por quê? Porque lhe faltava a
idéia do despertador. Era um menininho e não um relojoeiro suíço. Por isso, não
podia juntá-los: contados todos os fatores do despertador, faltava uma
coisa.
Assim, se a razão conhecesse todos os fatores do mundo
ou todos os fatores de que uma coisa é feita, ainda faltaria um fator, que está
além do número, está fora das peças, e gera a forma unitária da qual todos os
pedaços são função, parte.
Por isso, a razão — que é a mente do menino — não é
capaz de montar o despertador: é capaz de analisar todos os fatores que o
compõem; tendo-os todos à mão, mesmo que os contasse, entenderia que não
consegue montar o despertador porque falta um fator: a capacidade de montar,
isto é, a idéia do despertador. Ela está fora dos 353 fatores. Está fora: não é
de porcelana ou de latão, ou zinco, cobre, ferro, é de uma outra coisa! A idéia
é de outra coisa, é feita de outra coisa: de espírito.
Desse modo, a razão implica a afirmação da existência
do mistério, entendendo por mistério um fator presente em toda
experiência que não pertence aos fatores experimentáveis, enumeráveis,
calculáveis da própria experiência. A idéia do despertador está além do nível
das peças. Não é uma pecinha a mais: é uma outra coisa. Se alguém observasse a
questão de modo superficial (“São 353 peças”), ainda faltaria alguma coisa. Se
não é possível montar o despertador, falta aquele fator que junta tudo: falta o
sentido do despertador.
Quarto. Até aqui, tudo isso deveria ser
evidente. A dificuldade é precisar a expressão a ser usada, as palavras a serem
usadas, pois não estamos acostumados a estudar este assunto, não estamos
acostumados a defini-lo; de qualquer forma, é um emaranhado de palavras, não uma
confusão mental. No entanto, aqui começa a verdadeira confusão, que, antes de
mais nada, tem a tentação de ser confusão moral, por causa da falta da virtude
da humildade, do senso do limite, por causa de uma presunção que se
afirma. De que presunção se trataria?
Na consciência da realidade que é objeto do nosso
conhecimento e, portanto, na experiência que fazemos dessa realidade — pois a
realidade que conhecemos, quando é julgada à luz da razão, torna-se experiência;
a razão é como uma luz que, iluminando a chapa, deixa ver todos os fatores,
todas as costelas, mas, ao mesmo tempo, deixa ver uma coisa que parece obscura,
mas que, tum-tum, tum-tum, tum-tum!, tem a ver com tudo: é o coração, são os
ideais —, a dificuldade começa como esforço moral, o esforço moral da não
presunção, de não pretender.
“A razão é medida de todas as coisas”: o que está
errado? Está errado não justificar — por uma distração, ou uma aproximação
rápida e impaciente, ou uma afirmação pretensiosa — que falta
alguma coisa, como na famosa poesia de Rebora7. Existe um ponto em que — psssssss —
ouvimos o ar escapar: nós o chamamos de “ponto de fuga”. Ninguém elimina esse
sibilo; quem elimina esse sibilo diz uma mentira evidente, ou então é uma pessoa
que está com um fone de ouvido no qual ouve todo o barulho da danceteria, por
isso não consegue ouvir mais nada.
A presunção deveria ser detida: por sua natureza, a
razão pararia antes, incomodada, porque quer conhecer tudo, todos os fatores.
Porém, à evidência de que falta alguma coisa, à insatisfação, a razão prefere a
satisfação orgulhosa de dizer: “Contei tudo”. Uma vez que descobriu esse
psssss, esse sibilo, essa saída de ar que leva a um outro lugar,
impensado, a razão diz: “Quero conhecer isso também, quero saber do que se
trata. E quem me garante que não é um fantasma inútil?”. Não! Se a sua natureza
é exigência de conhecer todos os fatores da realidade, a existência desse
inapreensível é fator da realidade. E você deve ter a coragem dizer: “Isso é um
fator da realidade e eu não o conheço. Ou seja: eu não consigo conhecer a
realidade inteira, a realidade na sua inteireza”.
Vocês vêem onde a razão encalha e erra? Mesmo quando
percebe essa saída de ar, mesmo quando sabe que não consegue explicar tudo, a
razão:
* ou pretende afirmar: “Se eu for em frente, vou
conseguir conhecê-lo. Se eu for em frente, cedo ou tarde vou conhecer”. E
contradiz a natureza da operação com que a razão se embate com a realidade;
qualquer que seja o modo como se confronta com a realidade, a razão deve admitir
que existe um ponto em que ela não pode mais se mover: é o Mistério, Deus,
aquele que faz a realidade. No entanto, a razão diz: “Vou avançar e entrar, ouso
entrar no Mistério, no que pára na minha frente como Mistério e me ofende,
porque pára na minha frente como se dissesse: ‘Você não me entende, não pode me
medir, estou fora da sua alçada!’”. A razão se rebela contra isso, se irrita; do
século XIII em diante, ficou irritada com isso;
* ou então pretende dizer: “Não, deve ser
ilusão”. “Depois, como sob um abrigo, se acamparão de repente
árvores, casas, montes, para o costumeiro engano”8. “É um engano —
dirá —, uma brincadeira da natureza, imaginação, um sonho”. “É um sonho”, como
dizia o filho do pastor quando a jovem esposa do pastor lhe
contava os belos momentos do seu amor. Ele estivera lá, mas agora diz: “Não, foi
um sonho”9. Que quer dizer “sonho”? É o
estrangulamento premeditado da realidade, a negação da realidade.
Seja como for, diante do Mistério, a razão não pode
dizer: “Se eu fizer força, vou conhecer.” Para os homens do século XVIII,
parecia que “fazer força” era ir ali à porta: basta abrir a porta e
conseguiremos. Para os do século XIX, o objetivo pareceu ainda mais próximo. No
final do século XIX, disseram: “Só falta saber abordar cientificamente a psicologia e a sociologia (aliás, bastante
sintomáticas) e, então, teremos conhecido tudo”10 (diante do que Churchill disse: “Seria melhor que eu morresse
antes!”11). Não, senhor! Diante do Mistério, a razão
permanece limitada. Pode ir em frente por milhares de anos, tentando e tentando,
e dará passos de formiguinha. A razão é impotente para exaurir a totalidade do
real: a experiência não tem um fim em si mesma, não é completa.
Quinto. Então, o que a razão deve fazer diante
do Mistério? (Pois tentar conhecê-lo já é ficar de fora, é uma blasfêmia. Por
isso, a razão mostra a realidade ao homem tornando a solidão do homem diante
dela cada vez mais áspera e feroz. Só a criança se sente bem em companhia, no
entanto é inegável que uma amizade cósmica está muito mais em harmonia com as
exigências do coração do que a solidão que morde de quando em quando o tempo da
adolescência). Em relação ao conhecimento, a última posição da razão, a
ultimíssima, chama-se categoria da possibilidade, e existencialmente,
mendicância. Ou seja, a mendicância implica a categoria da
possibilidade.
Sozinha, tendo alcançado essa exasperação final — pois
é exasperação para quem realmente pensa nisso —, a razão gera um homem
desesperado. A última coisa que ela pode fazer além disso, a ruptura do
desespero, é o grito do Inominado de Manzoni: “Revela a mim o que tu és, seja lá o que fores”12.
O homem só começa a conhecer algo que nunca conhecera
se o Mistério se revelar a ele. Portanto, não é uma conseqüência do uso astuto
da razão, mas do uso humilde da razão,
do mais humilde uso da razão, quando a
razão se torna criança: choraminga, pede, pergunta, ou seja, reza. A oração
pertence ao horizonte cultural normal, natural, do homem. Mas a oração é pedido
ao Mistério: que se deixe ver, que se expresse, que se deixe conhecer. E a
postura do homem, por meio da qual ele aceita e entende cada vez mais a
resposta, chama-se fé.
Só depois, o homem diz: “Agora eu entendi!”. O
homem, por si mesmo, não pode chegar a esse ponto com a razão; só chega até aí
se aceita a revelação que o próprio Mistério faz de si. “Como vou viver se o
objetivo da minha vida for uma coisa que eu não posso conhecer?” É uma posição
vertiginosa, que o homem não pode manter. Por isso, todos caem, aqui ou ali, na
poeira ou nas pedras, sufocando-se ou quebrando os ossos.
“Deus, se existes, revela-te a mim, comunica-te
comigo!” — este pedido é o último gesto racional, ou seja, correspondente à
realidade segundo a totalidade dos seus fatores. A pessoa deveria ficar ali
parada, parada a vida inteira assim, dizendo isso, e seria mais calma
e mais
completa do que qualquer homem inquieto em sua busca ou pretensão. De repente,
abre-se um parênteses e alguém diz: “Ei, você!”. Quando eu era moço, via meu pai
cantando com ar de devaneio, e dizia: “O papai ficou louco”. Ao contrário:
repetia com o coração, devaneante, coisas que eu não entendia. É o que acontece
com a razão, quando diz: “Mistério, quem quer que tu sejas, seja lá o que fores,
revela-te a mim!”. É análogo, é uma coisa análoga ao que eu via quando era
pequeno. A criança, sem perceber, diz: “Tu, papai”; pede sem perceber que está
pedindo, pede uma coisa que nem o pai sabe o que é; mas pede ao pai. Quando
alguém pede, diz “tu”, na medida em que supõe, no objeto do seu pedido, no termo
do seu pedido, no outro, a possibilidade de algo que o satisfaça totalmente, que
lance a ponte, que conclua a aventura. Quando a razão reza, ela pode dizer “eu”
porque está diante de um “tu”. Antes não existe nada a que a razão possa
dizer “tu”. Nada, salvo as coisas, deprimentes e repletas de perdas, que são as
relações entre os homens, entre homem e mulher, entre colegas. O eu e o tu
encontram-se nesse nível. Mas estão aí como o sol que nasce no horizonte da
manhã: como um crepúsculo, ainda não se sabe o que é.
Sexto. Assim, aqueles pescadores, João e André,
vão ao bar de manhã para tomar café... vocês já conhecem a história do primeiro
capítulo de João. Diante daquele homem, foram obrigados a esclarecer o que
pensavam em certos momentos, distraidamente, sem uma consciência clara. Eles
entendem o que significa uma coisa excepcional — e que no entanto corresponde a
eles —: “Ninguém é como ele. Não há ninguém que responda ao que eu desejo como
esse homem. Ele responde ao que eu desejo, ao que eu nem sabia que desejava: eu
não saberia dizer o que desejo como ele sabe responder ao que eu desejo”.
Perguntam a ele: “O que você faz para ser assim?”. “O
Pai me diz essas coisas. Não faço mais nada a não ser repetir o que o Pai me
diz.” “Pai? De onde você vem?” “De Nazaré.” “Ah, mas nós já vimos o seu pai, a
sua mãe, os seus irmãos. E você diz coisas que ninguém sabe dizer! Tudo bem,
deixa pra lá.” No dia seguinte, eles vão lá de novo, não tanto pela curiosidade,
que é grande, quanto pela sugestividade daquele homem, que muda até o foco do
ardor pela própria mulher, pelos próprios filhos; não porque desfoca, mas porque
entra em foco a figura incomparável desse homem.
Depois de um, dois anos... faz uma coisa do outro
mundo: ressuscita um morto! Faz o filho da viúva de Naim descer da maca em que
os carregavam. Os dois ficam estupefatos e “cheios de terror”, diz o Evangelho
de São Lucas — “cheios de terror”: os seus amigos! —, e lhe perguntam: “Amigo,
cá entre nós: você é de Nazaré mesmo? De onde você vem? Quem é você? Você não
pode ser filho de José e Maria!”. E Ele diz: “Para vocês eu posso dizer, pois
passarão por uma provação: em poucos dias, vou ser condenado à morte”. Um deles
responde num acesso de raiva: “Você ficou louco? Antes de tocarem em você, terão
de passar sobre o meu cadáver”. “O quê? Antes que galo cante duas vezes, você
terá me renegado três”. Enfim: “Eu e o Pai somos uma coisa só.
Sem mim, vocês não podem ser nada”. NEle tudo consiste13; essa é a
definição de Mistério, porque tudo é feito do Mistério, tudo é feito de
Mistério; tudo é feito daquele homem ali!
Se o Mistério é a verdade do homem, e, sendo Mistério,
a verdade não pode ser conhecida, se o Mistério coincide com aquele homem, a
verdade é aquele homem ali. Quid est veritas? Vir qui adest. O que é a
verdade (pois é teórico, a verdade seria um conceito teórico)? É este homem
presente.
Este é o salto mortal contra o qual todos os homens
dos últimos séculos se rebelaram. Não foi assim para os homens dos séculos
anteriores, muito mais crianças e muito mais artistas do que eles, muito mais
humanos que eles — com efeito, os homens dos últimos séculos podem ser
facilmente identificados com uma ou outra profissão ou faculdade que fizeram, no
máximo a sua sabedoria se identifica com isso, com alguma “minhoca” a mais que
eles acrescentam. Não foi assim para quem veio antes deles, até os séculos XI,
XII, para aquele povo grande que povoou toda a Europa, desafiando as grandes
florestas que a cobriam, sem temer as feras humanas que pululavam nessas
florestas, transformando a ferocidade humana em convivência pacífica e fraterna,
e o instinto em amor, como o que existe entre homem e mulher ou entre amigo e
amigo.
Mas, enfim — deixemos de lado o antes ou depois do
século XII —, se uma pessoa disser o que aquele homem disse, ou ela quer enganar
você do modo mais grosseiro, mais terrível, e por isso deve ser morta — de fato!
—, ou então tem razão (isto é, não tenho nenhuma razão com a qual objetar). Quem
é esse homem? Tenho de repetir as suas palavras, sou obrigado a repetir as suas
palavras, porque não tenho nenhum dado de experiência que possa contrapor às
suas palavras. Só tenho dados de experiência que pré-confirmam as suas palavras:
confirmam-nas. E quanto mais repito suas palavras, mais entendo. Como diz a
história do Rei de Portugal, insuperada em sua adequação (leiam
na Escola de Comunidade14): o estranho personagem que foi morar
naquela cidade; era o melhor de todos; todos o tratavam mal, porque era um
estranho; e ele tratava a todos bem, porque era um homem nobre, galante; e todos
se perguntavam, quando se encontravam na única taverna da cidade, no domingo,
para jogar cartas: “De onde será que ele vem, quem será que ele é?”, e uns
diziam que era engenheiro, outros que era deputado, outro dizia
que era médico15. Exatamente como os apóstolos responderam
a Jesus: “Alguns dizem que você é um profeta, outros, que é filho do diabo: você
faz coisas mágicas como o diabo...”.
A pergunta a que você deve responder é fincada como
característica fundamental da sua responsabilidade, como expressão suprema da
sua humanidade: “E você, quem diz que eu sou?”, “E vocês, quem
dizem que eu sou?”16. A única resposta é repetir o que Ele
disse: “Sabemos que você é Deus porque você disse”. De fato, ninguém pode fazer
essas coisas, a não ser Deus.
A razão não sabe “como” ele pode ser, ao mesmo tempo,
homem e Deus, mas responde finalmente à última fissura, àquele sibilo: o
Mistério é alguém entre nós. A verdade, o Mistério é um homem entre nós: que nós
o sigamos, e quanto mais o seguirmos, mais conheceremos a
verdade, e a verdade nos libertará17.
Por isso, a razão — enquanto cognição que corresponde
às exigências do coração —, diante de Cristo é uma premissa ao problema
verdadeiro. A premissa consiste na constatação de que não existe categoria que
explique esse jeito de agir. Por isso, perguntam — e, até aqui, tudo é racional
—: “Quem é você, afinal?”. A resposta é ainda maior que o sentimento de
desproporção que tinham, supera-o infinitamente. Mas eles não podem deixar de
repetir o que Ele diz, não podem deixar de se tornar testemunhas do que Ele diz.
Este é o cristão: a testemunha do que Ele diz de si. Portanto, não é o teólogo,
mas o amigo daquele homem ali: quem crê nele. Crê por causa do testemunho que
Ele deu de si mesmo, e aceita o seu testemunho porque não existe ninguém que
tenha feito, saiba fazer e dizer as coisas como Ele fez e disse; não só não é
normal, mas é humanamente inexplicável.
A fé afirma uma coisa porque Ele a disse. Ponto
pacífico. E a pessoa aceita racionalmente: é razoável que a pessoa aceite uma
coisa porque foi Ele que disse, na medida em que é historicamente apreensível, é
uma excepcionalidade de comportamento apreensível, uma excepcionalidade de
performance, que não pode ser encontrada em nenhum outro lugar. Uma
pessoa que diz: “Sem mim, vocês não podem fazer nada!”: é uma bela presunção!
Não: é a definição de Deus, é a definição do divino, não presunção.
Então eu não afirmo que Cristo é Deus por meio de uma
demonstração direta. Está certo dizer que o afirmo com a razão porque me baseio
em uma experiência excepcional?
A razão não pode demonstrar a divindade de Cristo,
porque a divindade, enquanto está pessoalmente presente em uma realidade humana,
não é objeto próprio da razão. A razão pode chegar ao fato de que se encontra
diante de algo excepcional, não pode chegar a definir quem é Jesus Cristo,
enquanto o divino que se comunica ao humano.
Dizer que a presença do divino como tal pode ser
objeto da razão significa que a razão é capacidade de conhecimento do divino, da
natureza do divino, do que constitui o divino? Não, por isso é necessário algo
mais. É o oceano que o Ulisses de Dante tenta atravessar, mas o oceano o engole,
porque é maior do que a pequena embarcação que ele usa para a travessia. Ele
deve adotar o sistema de uma embarcação maior. Foi insano o vôo de Ulisses, não
porque pretendeu atravessar o oceano; foi insano por pretender atravessar o
oceano, com sucesso, usando os mesmos instrumentos por meio dos quais conhecia o
Mar Mediterrâneo. O Mar Mediterrâneo é o âmbito da razão, é o nível da realidade
como âmbito da razão; o oceano é o nível da realidade como fonte de tudo, isto
é, o divino. Se o Ulisses de Dante tentar penetrar ali, naufragará. Como
dissemos a respeito de todas as religiões: todas as religiões são uma tentativa
de atacar o Mistério, de atacar não no sentido negativo. Como se um menino de
seis anos “atacasse” um paredão do Monte Cervino ou do Monte Branco, tentando
escalá-lo; não é que seja “improvável” que ele o faça: ele não pode fazê-lo. Num
determinado momento estamos diante do juízo: “Não é possível”. E não se deve
esperar que todos os meninos de seis anos de toda a história do mundo tentem
escalar a montanha para que se possa dizer: “Ninguém é capaz”. Há uma capacidade
indutiva que transforma em lei uma certa multiplicidade de sinais.
De qualquer forma, para falar da fé em Jesus é
necessário fazer o humano aflorar: a fé em Jesus obriga a olhar para o humano de
forma a conhecê-lo como nunca havia sido conhecido. Todo o humano interessa. Por
isso, por exemplo, para entender quando digo que alguém consagra a vida a Jesus,
para entender quando falo do sim de São Pedro, para o qual “o amor da
minha vida és Tu, a minha vida és Tu”, para entender o que frases desse gênero
significam, é necessário prestar atenção na própria experiência de vida, é
necessário viver a consciência da experiência do amor. E se a experiência do
amor in humanis parece ter no relacionamento homem-mulher a sua expressão
mais sugestiva — não última, mas mais sugestiva —, eu devo poder conhecer e
aprofundar meu relacionamento familiar com Cristo e a minha afeição a Cristo de
forma tal a reencontrar a sugestividade do amor do homem e da mulher em outro
nível, mais profundo e mais sugestivo. Quando explicamos a passagem do evangelho
em que André e João voltaram para casa18, nada era
eliminado dos seus relacionamentos, do relacionamento de André com sua mulher e
seus filhos: André havia encontrado algo mais profundo, mais vibrante, mais
sugestivo, que provocava a sua afetividade cem vezes mais que a esposa, que ele
amava.
A identidade entre Mistério e sinal da qual falo é uma
identidade real em seu vértice: pensem na sua suprema concretização, que é a
Eucaristia; não existe identidade maior entre Mistério e sinal do que a
Eucaristia. Depois do mistério sacramental, tudo se desenvolve em uma escala
analógica, ou seja, em proporções diferentes.
Uma vez alcançada a fé, é ainda por meio do mecanismo
da razão que a graça do Ser age para entrar no Mistério, para entrar na
consciência do Filho de Deus, do Verbo ou do Espírito que faz o mundo: a graça,
ou seja, o doar-se gratuito, o expor-se gratuitamente nas fronteiras da
realidade humana, usa a lógica, a capacidade crítica, a capacidade de ser
sistemática da razão. É uma graça essa ampliação da capacidade de conhecer da
razão, que não é mais como antes, mas é estendida por algo “Outro”, que a torna
capaz de penetrar também nesse Outro. Pois a pessoa nunca saberia identificar ou
supor certas coisas em uma certa pessoa, um homem em uma certa mulher. Mas
quando o homem se encontra de verdade com o “tu” dessa mulher, ela faz nascer
nele como contragolpe um respeito cheio de tremor e uma dilatação, uma abertura
de abandono e de segurança que antes nem poderia ter imaginado. Uma vez
encontrado o “tu”, reconhecido o “tu”, o “tu” permanece como princípio de
conhecimento e, portanto, princípio de uma razão usada de uma forma que antes
não era possível: antes não seríamos capazes de usar a razão assim.
traduzido por Juliana P. Perez
1 L. Giussani. O
senso religioso [tradução de Paulo Afonso E. Oliveira]. Rio de Janeiro, Nova
Fronteira, 2000. voltar
2 Idem, ibidem, p. 26. voltar
3 “In mezzo del cammin di nostra vita”, início da
Divina Comédia, de Dante Alighieri; ndt. voltar
4 Heinrich Irenaeus Quincke (1842-1922), médico alemão
que descreveu o edema angio-neuronal, mais tarde chamado de doença de Quincke;
ndt. voltar
5 Ao ser vibrado, o diapasão emite a nota lá, em volume
baixo. Quando se coloca o diapasão na caixa ressonante — que na verdade tem
cinco lados, pois é uma caixa aberta —, o som emitido por ele é ampliado;
ndt. voltar
6 “Gioventù Studentesca”, o primeiro núcleo do que
depois viria a ser o movimento de Comunhão e Libertação; nde. voltar
7 Cf. C. Rebora. “Sacchi a terra per gli occhi”. In: Le
poesie. Milão, Garzanti, 1988, p. 141-145. Alguns versos do poema foram citados
em O senso religioso, p. 80: “Seja o que for que digas ou faças,/ Há dentro um
grito:/ Não é por isso, não é por isso!”. voltar
8 E. Montale. “Forse un mattino”, Ossi di seppia. In:
Tutte le poesie. Milão, Oscar Mondadori, 1990, p. 42. voltar
9 C. T. Dreyer. Dies irae. Dinamarca, Palladium,
1943. voltar
10 Aqui se faz referência em particular, a título de
exemplo, aos autores do movimento americano protestante de pensamento e de ação
denominado “Social Gospel”, ativo nas últimas décadas do século XIX a até o
final da Primeira Guerra Mundial. voltar
11 “In his introductory
address, Dr. Burchard, the Dean of Humanities, spoke with awe of ‘an approaching
scientific ability to control men’s thoughts with precision’. I shall be very
content, personally, if my task in this world is done before that happens” (do
discurso pronunciado por W. Churchill em 31 de março de 1949, no Massachusetts
Institute of Technology, publicado em Mid-century, organizado por John Ely
Burchard). voltar
12 Cf. A. Manzoni. I promessi
sposi (Os noivos), cap. XXIII. A frase foi dita também pelo próprio Manzoni,
conforme relata uma biografia: “Em Paris (...), um dia entrou na Igreja de São
Roque, com o espírito repleto dos graves pensamentos que o atormentavam. ‘Ó,
Deus’, disse, ‘se você existe, revele-se a mim’. E saiu crente daquela Igreja”
(G. Carcano. “Vita del Manzoni”, prefácio a I promessi sposi. Milão, Fratelli
Rechiedei, 1887, p. IV). voltar
13 Cf. Cl 1, 17. voltar
14 L. Giussani. Na origem da pretensão cristã [tradução
de Paulo Afonso E. Oliveira]. São Paulo, Companhia Ilimitada, 1990, p.
79-80. voltar
15 A história prossegue assim: “‘Amigos, agora que
somos realmente íntimos, eu posso lhes dizer. Mas vocês não podem me trair,
porque por uma série de razões a minha posição diante da lei é muito delicada e
se soubessem que estou aqui eu seria imediatamente preso. Eu sou o rei de
Portugal em exílio’. Ninguém no bar pensou em duvidar da sua resposta. Era
evidente que as respostas que haviam tentado dar explicavam muito menos o
conjunto da personagem que a explicação dada por ele próprio. A sua inimaginável
resposta se adequava ao seu tipo de pessoa, à evidência que dele emanava, muito
mais que as hipóteses das pessoas” (Idem, ibidem, p. 80). voltar
16 Cf. Mt 16, 15; Mc 8, 29; Lc 9, 20. voltar
17 Cf. Jo 8, 32. voltar
18 L. Giussani. “Reconhecer Cristo” [tradução de Durval
Cordas]. In: Litterae Communionis nº 43, jan./fev. de 1995, p. 22-23. voltar
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